A pescaria do Universo – Parte II

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Conforme combinado, conto o resto da história do Raimundo. Até aqui, ele havia consertado o arame, esquecido a chave dezenove, arrumado umas iscas, cadeira, reboleado as linhas e atirado na água. Que estava um espelho.  Sem vento, dava para confundir o que era real e o que era reflexo. Raimundo fez um malabarismo e olhou a cena de cabeça para baixo. Parecia que podia caminhar na água, ou pescar no céu. O homem sentou na cadeira e ficou apreciando aquela visão ímpar. Era a hora dos maçaricos voarem em bandos para seu pouso noturno. Passavam pela cabeça do Niversário fazendo um “vuuuu” deslumbrante. Garças pescando lambaris, viu uma capivara com suas crias lá longe, do outro lado do espelho dagua. A grama verde, recuperando-se da seca e do calor do verão. Doralícia, a mais velha e dominante, deitou do lado da cadeira e dali observava os bichos no açude. Manoel, receoso, estava sentado a uma distancia prudente. Em seguida, o céu da páscoa começou a mostrar todo o seu esplendor. O colorido se refletia na água plácida do açude e a cena era impressionante. Raimundão se sentiu pequeno ante a maravilha que é o mundo, o universo real. Seu pensamento perdeu a razão e só o que conseguia era contemplar a cena. Os pequeninos insetos que caíam na água, a ritmada ondulação que surgia quando os lambaris emergiam para capturar as mosquinhas. Um movimento daqui e dali nas bóias. Mas nada de uma traíra de fundamento para a sexta santa.

Assombrado com a beleza da cena, pensou na Ucrânia. E se o Putin invadisse Encruzilhada, e todos tivessem que ir embora? Putcha-la vida, de que foi feito esse homem? E que nome foram inventar para ele, nem precisa de apelido. E será que lá tem açude, traíra ou céu de Páscoa como aqui? Para completar, começou a se formar um sentimento de compaixão na alma do Mundão. O anzol, a dor do peixe, a faca na garganta. Sangue, pensou nos filhos, nele mesmo. E se imaginou peixe, um traíro. Riu da cena. Mas uma culpa o invadiu quando imaginou-se pescando um pai de família. Ou uma mãe, pior ainda.

– Calma, Universo. Não viaja na bobagem, disse de si para si, e riu por dentro.

Nesse momento, olhou em volta e não viu o Manoel. O cachorro era novo, e metido a aventuras. Ficou preocupado. Deixou por um instante os equipamentos que trouxera e foi procurar o bicho. Estava deitado no meio caminho entre o açude e a casa. Resolveu leva-lo de volta e fechar no pátio, que é cercado por uma tela. Foi. Abriu a porteira, chamou o Manoel, ele entrou, fechou a porteira. Aí viu a horta, e lembrou que tinha que cobrir uns canteiros com o sombrite. Havia semeado umas verduras e era preciso prevenir que os passarinhos não comessem as sementes. Fez. Novamente tomou o rumo do pesqueiro.

Então percebeu que a Doralícia não estava junto. Ué, onde estará a cadela? Um pensamento sombrio invadiu seu cérebro. Será possível que ela fosse capaz? Foi capaz. Quando andou mais um pouco já viu, lá adiante, o balde virado. Pois a cadela tirou o coração de dentro do balde e comeu. De lá da beira da água ela, sentada, olhava a chegada do dono, com a expressão de satisfação e culpa dos cachorros que fazem bobagem.

Niversário nem conseguiu ficar brabo. Recolheu as linhas, lavou o balde, depositou as garrafas e a faca no seu interior, dobrou a cadeira e voltou para casa. Começou a guardar tudo. Então ouviu a voz da Marília.

– Cadê os peixes? Raimundo como que acordou. Não tinha peixe para a semana santa. Raiva da Doralícia, do Manoel, dele mesmo. Que baita pescador que era. Mas agora era tarde, não tinha mais vontade de pescar. Guardou tudo, lavou as mãos, foi até a cozinha e contou para a Marília tudo que aconteceu. A medida que a história avançava, mais detalhes surgiam e mais coisas contava. Marília, que gostava de tomar mate de tardezinha, ouvia, enquanto enchia e esvaziava a cuia.

Por fim, despachou, – tem uma lata de atum. Faço com molho e uma massa. Tu vai ver, fica bom. Por dentro, estava tranquila, conhecia o Mundão dela há muito tempo.