AGENDA l Um gênio

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          E por onde se começa?

         Ah! Esta vida tênue, frágil e indiferente aos seus adeptos…a vida não para.

Não são as coisas bonitas que marcam as nossas vidas, mas sim as pessoas que têm o dom de jamais serem esquecidas.

Olho no relógio e vejo que as horas não passam, quando os ponteiros marcam 00:53 h, que avançam o sábado e o sono não vem…na verdade também não virá, enquanto eu não houver findado este tributo…

         Meus pensamentos desordenados me deixam em descompasso, tenho os olhos marejados e permito-me uma pausa…para que minhas lágrimas façam as minhas últimas homenagens…

         David Coimbra nos deixou.

         Mesmo estando longe, mesmo não tendo qualquer contato, mesmo eu sendo um fã desconhecido e, provavelmente distante, quando ao contrário um fã deveria ser e estar, mesmo assim, nossas histórias se cruzam e trazem na sua essência, a analogia das mesmas coisas: ele em 2013 e eu em 2014.

         Desta data em diante, trilhamos praticamente os mesmos caminhos, mas, distantes, muito distantes e, eu de minha parte, torcendo muito por ele…mesmo que nesses nossos caminhos não houvesse uma encruzilhada de encontros.

         Olhem que pretensão…

         Quando admiti o meu livro, E A Vida, Continua?, e assim o forjei, jamais e em tempo algum sonhava em ler “Hoje eu Venci o Câncer”, deste majestoso escritor.

         Ainda tentando entender as coincidências, na semana passada, ciente das dificuldades com a saúde deste estupendo escritor, minha Lena sugeriu que enviássemos um exemplar do meu livro para ele…quem sabe…

         Não houve tempo, mesmo que ainda possam pensar ser uma jactância, mas algo precisava ser feito.

         O tempo não nos permitiu um encontro de palavras, de trocas literárias com o mesmo fim e de mensagens semelhantes.

         As relações contam a mesma história, as mesmas páginas falam de coisas iguais, os nossos tempos dizem de lutas que foram vencidas mesmo que de um futuro incerto, mas que o otimismo e a vontade de viver conseguem suplantar as escuridões da vida.

         Aquele dia lá fora ensolarado, também foi para mim as sombras frias de muitas despedidas, em que afirmavas que a vida de nada tinha sentido por não poderes usufrui-la.

         Em uma das páginas deste meu livro, existe lá um arrazoado com o título: “A Vida Não é Para Quem Está Doente, e ele fala praticamente igual ao que, por diversas vezes nestes últimos tempos, deixastes implicitamente nas entrelinhas das tuas colunas.

         Coisas de gênio.

Jamais imaginei em deixar para as minhas filhas, um pouco daquilo de mim que, com tua genialidade, soubeste ser oportuno e deixar um legado ao Bernardo.

         São coisas assim que te diferenciavam de nós, cronistas comuns.

         A habilidade fora do comum de criar metáforas para falar da vida.

         Teu talento extraordinário sobrepõe aos tempos e, com toda a certeza ele viverá para a eternidade, mesmo que esse tempo tenha sido justamente aquele que te foi infiel.

         Guerreiro.

         Na verdade, ficamos órfãos de um dos maiores, senão o maior cronista da atualidade, sagaz, espirituoso, ácido, opinativo, inteligente, sábio e de uma cultura esplendente.

         E assim, continuamos a viver…com perdas e danos…

         É… a vida não para…

         Fica bem, Davi…fica com Deus…

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara

(Lenine)