Lembrando um grande amigo e um herói da tevê

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Meu Pai, que era construtor, era muito amigo de um Mestre de Obras com quem trabalhava. O nome do homem era Isabelino. Me criei entre essas pessoas, acompanhando projetos e construções.  O Isabelino me contava que cursou a escola por três meses. Aí, disse que achou a professora muito fraca, e desistiu. Aprendeu o que aprendeu sozinho. Observando, pensando, tentando. Escrevia conforme falava, o que significa que nem sempre as palavras saíam como o dicionário indica. Mas sabia muito de administração de pessoas, e com ele aprendi a nunca gritar com ninguém. Sempre que estava numa obra, e precisava que alguém fizesse alguma coisa, ia até a pessoa e dizia o que queria.

Lembrei do Isabelino, outro dia, enquanto via uma façanha na televisão. William Shatner. o lendário “capitão Kirk”, da Jornada nas Estrelas, fez um voo até o espaço, na nave do Jeff Bezos. Um passeio de uns quinze minutos e que custou uns quinhentos mil dólares, ou seja, uns três milhões de reais.

Havia um programa na televisão, do Silvio Santos, e nesse show ele distribuía dinheiro. Tirava do bolso do casaco notas de cinquenta reais e ia dando para as mulheres da plateia, que faziam de tudo para aparecer na teve e ganhar um dinheiro do famoso apresentador. O Isabelino, um dia, olhando aquilo, perguntou “como é que ele tem tanto dinheiro?”. Até estranhei a observação, porque o homem era inteligente. Porém, como qualquer um de nós, só podia ver o programa de sua perspectiva. Talvez pensasse na futilidade de distribuir aquela grana toda, talvez nos seus recursos e o que faria se tivesse disponível o dinheiro que o Silvio distribuía todo o domingo.

O fato é que muita gente, mundo afora, espantou-se com a soma envolvida no passeio do capitão Kirk. Afinal, para nós, simples mortais, três milhões representam o ganho de uma loteria. Dá para ajeitar a vida! Não temos perspectiva, nem base de comparação, para saber como é a vida de quem tem esse dinheiro todo para ver a Terra de fora por uns poucos minutos. O príncipe William, da Inglaterra, provável futuro Rei da Ilha, disse que “os ricos do mundo deveriam gastar seu dinheiro salvando o planeta em vez de passear no espaço”.

Pura demagogia do Príncipe, afinal ele pertence a essa turma que tem dinheiro sobrando. E que cuida do mundo com uma mão enquanto explora com a outra. A verdade é que precisamos de todo o tipo de gente. Empreendedores, burocratas, preservacionistas. A maravilhosa curiosidade humana é mãe de todas as ciências. E se existem endinheirados pagando por esses passeios, então os empreendedores aproveitam isso para desenvolver projetos cada vez mais sensacionais. Outros, preocupam-se com a organização, os custos. Outros, em salvar as baleias, em preservar a água que bebemos, ou ter comida para todos. Capitão Kirk foi lá. Viu que a Terra é redonda. Bem que o príncipe podia ficar quieto e fazer algo de útil.