Meu presente de Páscoa

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         Não é novidade para ninguém de que vim de uma família de classe média-baixa, onde o seu João Francisco era telegrafista da RFFSA e, dona Iolanda dos afazeres domésticos, e muito bem feitos.

         Este pai de quem eu sempre senti tanta falta, mas que também tive o privilégio de conviver por 17 anos, apenas e tão somente, todavia nos deixou lições de vida inesquecíveis.

         Nossa personalidade foi moldada, sem sombra de dúvidas, através de seus magníficos exemplos de retidão, honestidade, fraternidade, amor, compreensão e, de muita lealdade aos seus.

         O Chico Carretta era sensacional e nos deixou cicatrizes de saudades até hoje sentidas.

         Porém, não ha do que se lamentar pela pessoa que foi e pelo o que o que fez, dentro dos seus princípios, tornando-se uma pessoa adorada por todos.

         Esse era o meu pai.

         E, pelas condições financeiras, o orçamento da nossa casa nunca sobrava, ao contrário, meu pai o administrava como se fosse uma relíquia (e era), não desperdiçando nenhum centavo.

         Toda e qualquer oportunidade de empregar nosso parco orçamento em coisas úteis, não passava despercebida do seu Chico.

         Eram aquelas coisas que sempre conviveram conosco, ou seja, tudo era unindo o útil ao agradável.

         E a vida era muito boa, tanto é verdade que sobrevivemos muito bem e sem nos faltar nada.

         Lógico que não tínhamos o supérfluo.

         Lembro que certa vez passei pelo Bazar Miscelânea, que ficava no início da Avenida Presidente Vargas, bem pertinho onde morava e, lá estavam aqueles carrinhos de ferro, que eram para colecionadores, estampados na vitrine.

         Ao redor deles, o não menos famoso Coelhinho da Páscoa.

         Com toda a certeza meus olhos deviam ter ficados brilhantes, como as estrelas do céu e, não havia dúvida nenhuma de qual seria o presente a ser solicitado para aquela ocasião.

         Era a época áurea do Autorama e do Ferrorama, quem não lembra disso?

         O Forte Apache já tinha passado pela nossa vontade, pois sabíamos que jamais iríamos ganhar, mas um carrinho para colecionar, em minha vã filosofia não seria tão difícil assim.

         Lembro que pedi para a Dona Iolanda, porque coração de mãe é muito mais mole e, saberia como dizer ao Seu Chico que o Beto queria ganhar um carrinho de ferro ali do Bazar Miscelânea.

         Afinal de contas, era até bem pertinho de casa…imaginava a minha consciência pueril.

         Quando chegou o domingo, dia de buscar nos ninhos os presentes, imaginava um lindo carrinho de ferro…

         Quando cheguei ao lugar onde estavam os ninhos, para minha surpresa, o pacote de presente que para mim tocava, era muito maior do que um carrinho de ferro.

         Sei lá o que se passou em minha cabeça, mas logo deduzi que eu tinha ganho não uma miniatura, mas sim uma coleção completa de carrinhos de ferro em miniatura.

         Rasguei o papel do presente mais do que depressa, os olhos faiscantes de alegria, rindo aos montes e, juro, não foi decepção quando eu vi o meu presente, mas sim de muita compreensão e admiração por meu querido pai – havia ali, por detrás daquele lindo papel do coelhinho, umas botas de borracha para ir ao colégio nos dias de chuva.

         Seu Chico, do alto de sua sabedoria e entendimento da vida, mais uma vez havia unido o útil ao agradável, para a proteção do seu filho.

         Ele me olhou ternamente com seus olhos verdes, e eu lhe dei um longo e apertado abraço.

         Obrigado meu pai!