Meus muitos nomes

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Esse negócio de lembrar os nomes é engraçado. Há uns quantos anos atrás, quando eu vistoriava empreendimentos para um banco, sempre que possível levava a minha filha junto. Contava ela seus sete anos, mais ou menos. Um dia, quando estávamos chegando numa  propriedade no interior de Encruzilhada, alertei a guria:

– Esse senhor que vamos visitar é gente fina, e gosta muito de conversar comigo. Mas tem um detalhe, e tu precisa ficar quieta quando acontecer. Ele me chama de Rui. Não diz que meu nome é Sérgio, vai ficar chato, porque faz muito tempo que ele confunde meu nome e eu nunca corrigi.

Conforme esperado, o cidadão nos convidou para tomar um suco na casa dele, conversamos bastante, mas a Lu sempre me olhava com o canto do olho quando ele se referia a meu nome.

Acontece com todo mundo. Esquecer um nome que está na ponta da língua, confundir o nome de uma pessoa. E é normal a gente corrigir, claro que sempre envolve um certo constrangimento. Mas também é interessante, até revigorante, conversar com alguém convicto de que o meu nome é outro. Minha imaginação é fértil e, quando acontece, acabo me imaginando uma pessoa diferente mesmo.

Poucos dias atrás, aconteceu novamente. Dessa vez, estava na cidade e aproveitei para cortar o cabelo, lá no Claudinho. Gosto de ir lá, e gosto das defesas apaixonadas do profissional do corte pelo seu colorado. Sou gremista, mas me agrada ouvir o outro lado, se me entendem. E lá estávamos, quando entrou outro amigo, de apelido “Chuleta”. Quando me viu, soltou essa:

– Bah, há quanto tempo não te via. Pensei até que tu tinhas morrido!

– Credo Chuleta. Sai pra lá com essa.

– Ué, não te vi mais. E tanta gente morreu desse corona, que pensei que tu tinhas ido junto.

– É que tenho ficado mais lá fora. Aliás, também faz tempo que não te vejo, mas não pensei que tu tivesses morrido.

– Pois é, Milton, foi porque não te vi.

Milton? Pronto, arrumei outro nome. E aí foi, enquanto terminava o corte e esperava minha carona. Chovia. E era Milton pra lá, Milton pra cá. Como eu disse, não me importo, gosto até quando isso acontece. Dou muita risada, interna. Claro.

Então, dei uma saidinha até a frente da barbearia para ver se minha carona já havia chegado. Quando voltei, milagre. Me transformei em Sérgio de novo. O Chuleta seguiu conversando, futebol, não sei mais o que, mas agora não tinha mais Milton. Só Sérgio.

A carona chegou, e ele aproveitou para ir junto até o centro. No trajeto, que durou uns dois ou três minutos, disse tantas vezes meu nome que até desejei ser Milton. Enjoei do Sérgio.

Depois, chegando em casa, lembrei do episódio. Mandei uma mensagem para o Claudinho,

– Tu sopraste meu nome para ele, né?

– Não, só disse teu nome em voz alta.

Pronto, diplomacia. A maravilhosa arte de corrigir sem corrigir.