Sobre amizade

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Acho que sou uma pessoa que gosta demais de inventar coisas. Preciso estar sempre em funcionamento. De uns anos para cá, minhas engenhocas se tornaram simples, fico inventando coisas no entorno da casa. Quanto mais naturais, entre aspas, melhor. Nosso pátio é cercado. Tela. Aqui dentro moramos nós e alguns cães. Em volta das casas, fiz o que chamo de quinta. Cerquei de arames e não permito que o gado entre. Como efeito colateral, preciso sempre roçar com um trator. Mas aqui tenho muitas árvores frutíferas, e preciso que fiquem isoladas até que se tornem adultas. Fiz também uma horta e um galinheiro.

Nosso galinheiro tem um cercado de tela e uma área coberta e fechada, dividida ao meio. Metade seria para engordar frangos, mas meio que desisti disso por um desgosto que sinto quando tenho que matar os bichos. A outra metade é para galinhas poedeiras. Minha mulher que cuida delas.

Aqui tem um detalhe que considero muito importante. Eu sinto muito prazer em plantar, produzir, cuidar das plantas. Construir o galinheiro também me fez bem. Mas não tenho gosto em colher. Deixo para ela. Que é o contrário do que sou. Se delicia com os frutos da horta e do pomar, e os ovos das galinhas.

No entanto, minha mulher não tem espírito produtivo. É o que penso. As galinhas começaram com umas dez e agora são duas, mais o galo. Ela não lembra de ir na loja comprar mais frangas. Vai convivendo com as que tem.

Muito tempo isso me incomodava. Mas não incomoda mais. Tenho observado a relação entre minha mulher e as galinhas. É uma relação muda, quase imperceptível. Prende os três de tardezinha, solta de manhã, leva água, um pouco de milho e dá restos de comida. Procura o local onde estão botando um ou outro ovo, e quando pode, colhe. Só isso. Ensinou os cães a não atacarem as galinhas.

Os cães, observando a convivência entre esses seres, humana e galinhas, passaram a tomar certos cuidados, e as galinhas ficam mais protegidas. Elas vivem em volta da tela, sabem a hora em que vai sobrar alguma coisa da cozinha e aparecem em hora marcada.

O trio, galo e galinhas, vivem uma vida tranquila. Me comove a atitude desse galo. Está sempre cuidado suas companheiras, levando para lá, para cá, um olho sempre aberto para os perigos que os cercam.

Não sei se consigo, aqui, expressar a intensidade dessas coisas que relato. Não é nada grandioso, mas são todos conhecidos, dia a dia se procurando e convivendo. Nem é pelo ovo ou pela comida, ou só por isso. São amigos, num nível simples e profundamente complexo.