Cotas de arroz?

0
496

O Correio do Povo e a Zero Hora, em suas páginas rurais de sexta feira passada, trouxeram notícias sobre a produção de arroz. Os preços dos insumos subiram e o preço de venda, para o produtor, caiu, entre agosto de 2020 e o mesmo mês de 2021. No ano passado, a saca estava a uns 80 reais e agora vale uns 73. Enquanto isso, segundo os jornais da capital, os adubos subiram 74 %, campeões de alta. Os demais itens da produção tiveram seus preços aumentados na ordem de 30 %. Noticiaram que existem sugestões para que os produtores plantem menos e usem suas terras para outras culturas, como soja, a fim de equilibrar suas contas.

Esse drama da produção de arroz já dura quase trinta anos. Uma vez, eu li sobre a produção de leite num país da Europa, não lembro qual. O que os produtores gastavam para produzir era mais do que valia o produto. Então, foi preciso criar uma forma de subsídio aos produtores. Eles calcularam quanto de leite o país consumia. Dividiram entre os produtores, de forma que cada um tinha uma cota. Por exemplo, um produtor recebia o direito de vender até 200 litros de leite por dia. Como a indústria só podia pagar 2 dinheiros por cada litro, e o custo era 3, o governo do país pagava 1 dinheiro ao produtor por cada litro produzido. No entanto, se o produtor quisesse vender acima de sua cota, por exemplo 220 litros, então se considerava que o negócio era bom para ele e não precisava de subsidio. Com isso, o país mantinha a certeza de que os produtores tentariam produzir o máximo dentro de sua cota, e não mais que a cota. O abastecimento ficava garantido, não haveria excesso e nem desperdício de dinheiro público.

Num mundo ideal a produção de arroz seria assim. Visto ser um alimento básico, principalmente de famílias de baixa renda, que não podem pagar caro pelo produto. No mundo real que vivemos a coisa não funciona assim. No mundo real, existem redes de distribuição e venda de produtos alimentares muito grandes e fortes. Que determinam o preço tanto do que compram quanto do que vendem. Depois, temos indústrias, também fortes, embora de porte menor que essas redes de distribuição. Tanto distribuidores como indústrias  são em número que quase se pode contar nos dedos das mãos. Já produtores de arroz são, sei lá, 30 mil talvez. E consumidores, uns 200 milhões. É lógico que, quanto menos gente, mais fácil de organizar. Com a diferença que, em número de milhões, o poder fica com o voto. Assim, se o preço no supermercado ficar muito caro, os governos não se reelegem. Sobra para o produtor, que está no meio do barro, sonhando com um trator novo, e pagando a conta.

Sobre a opção de plantar soja na várzea, ao invés de arroz, a soja irá para a China, que compra tudo que produzimos. Mas os chineses também comem arroz.  Muito mais que nós. 500 milhões de toneladas por ano, enquanto nós comemos 12 milhões. Mas então, porque não vendemos arroz para eles? Ora, porque eles não estão interessados em comprar. Produzem o suficiente e não parecem interessados em plantar soja nas várzeas deles.