Eu não gosto do Natal

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“Quando eu posto a minha opinião, não é para convencer ou mudar a sua.

É para quem pensa igual a mim, saber que não está sozinho.”

EU NÃO GOSTO DO NATAL 

Também não sou nenhum “Grinch”.

Sucesso de bilheteria, a animação “Grinch” conquistou fãs pelo mundo ao contar a história de uma criatura verde que não suportava o Natal.

Na trama, o personagem tenta roubar todos os presentes para impedir a festividade.

 O filme é baseado no clássico da literatura infantil “Como o Grinch Roubou o Natal”, mas também representa a história de muitas pessoas que não suportam pinheirinhos decorados, trocas de presente e outras tradições desta época do ano.

Sei muito bem que este sentimento também não é um privilégio somente meu.

Ah, antes que me condenem: também não gosto das festas de ano novo.

Se me perguntarem qual o motivo, direi tranquilamente que o encanto destas festas há muito tempo já passou.

Arrefeceu-se totalmente.

Não nutro mais nenhuma atração pelo “Jingle Bells” e o chatíssimo “adeus ano velho, feliz ano novo…”, mesmo porque pouco ou quase nada se realiza…existe aí muito mais ilusão do que realidade.

Claro que sim, as pessoas podem e devem ter esperanças…talvez eu esteja sendo muito “pé-no-chão” …deixando de sonhar.

Tempos atrás também fui um desses que depositou muita esperança no futuro, que planejou só coisas boas, uma vida mais tranquila…mas os dias me provaram que as coisas não são bem assim e, que existem linhas de nossas vidas já traçadas.

Dirão os analistas de plantão que o meu comportamento é inadequado para esta data, afinal de contas comemoramos a Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Até aí, concordo plenamente, contudo, e vocês também irão concordar comigo que, ao vir a mente a palavra Natal, Festas de Fim-de Ano, qual a primeira coisa que logo surge em sua frente…se não é: “tenho que providenciar os presentes…montar a árvore de Natal, organizar com a família o cardápio da ceia…comprar uma roupa nova para o Réveillon…

É ou, não é? Sejamos sinceros…

E o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo? Onde ficou?

Família…pode ser que também esteja aí a melancolia das datas, quando já vai grafado na frágil prancheta da vida, as diversas perdas de entes queridos, dos quais guardamos as maiores saudades.

Quem disser que somente o tempo poderá apagar estas dores, insolentemente profere embuste, porque esta dor é pungente sempre, principalmente nestas ocasiões.

Mas as crianças estão aí para preencherem estes espaços…com toda a certeza e disso não se duvida, mas a história de quem passou por nossas vidas, que não foram espectros e não viveram em brancas nuvens, ah, estas são impossíveis de esquecer.

Fica muito difícil encontrar boas razões para eu olhar estas datas com outros olhos.

De melhor mesmo, ficaram as lembranças da infância e, quando os nossos infantes corriam pela casa esbanjando felicidade, enrolados nos papéis coloridos, graças ao Bom Deus.

Nesta altura do campeonato, ressignificar tudo isso é algo muito complicado, mesmo que o amor, o nascimento, os reencontros estejam presentes.

Cada qual com as suas razões.

Acreditem, os “Grinchs” são cada vez mais uma realidade e, respeitar tais sentimentos é um exercício de tolerância, sendo a recíproca verdadeira.

Uns gostam do azul, outros gostam do vermelho, uns do carnaval outros da Semana Santa, uns de gatos, outros de cachorros, da praia, do campo…

Não há espelho melhor que reflita o ser humano do que as suas preferências.

Na busca de prováveis significados, procuro deixar estes sentimentos de não mais apreciar as festas de final de ano no campo de minha melancolia, nas minhas recolhidas lembranças, sem intelectualizá-los, como por exemplo, trazer teses de que o Natal e o Fim-de-Ano é um comércio, uma jogada de marketing, uma hipocrisia de abraços falsos e desejos fingidos, e por aí vai…

Muito embora tudo isso esteja bem próximo da verdade.

E, em se falando de presentes, os lindos embrulhos coloridos, papéis vibrantes, laços intermináveis, comungo da opinião do escritor Mário Prata, quando em crônica deste mesmo assunto, salienta: …” … Não gosto nem de dar e nem de receber presentes em datas certas. O presente é bom quando você não espera. O presente, conforme a palavra em si se explica, é uma “presença”. Portanto, não pode ser datada. Não deve ser uma obrigatoriedade”.

Estou naquele time que, se pudesse, passaria totalmente despercebido nestas festas de fim de ano.

Ceticismo, descrença, rabugice…?

Entendo que não, pois mantenho pacientemente, também minha tolerância quanto a tudo o que acontece em minha volta, até mesmo ao observar pelas estradas onde passei, a mãe ou a avó que obrigava ao filho ou netinho a beijar aquele Papai Noel imenso, ofegante, suado, com a barba descolando do rosto e, a bota ainda com resquícios da lida do campo… – senão tu não vais ganhar presente!!

É bem verdade que também não vejo a hora de me deliciar com aquele peru assado, dourado, suculento, a farofa quentinha (sim, com passas de uva – adoro), o delicioso salpicão, um strogonoff tradicionalíssimo, tal e qual a criação de um chef francês que trabalhou para a família russa Strogonov, as frutas que servem de um bom acompanhamento e, a gostosíssima maionese feita pelas irmãs Silva.

Vai ser então, quando vou abrir um bom vinho, debruçá-lo lentamente sobre um cálice e desejar a todos vocês um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

Nem tudo são impertinências…