Mães, a minha, a tua e das da água

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As mães-dágua são conhecidas por quem frequenta praias. Muitos já experimentaram a sensação de queimadura que algumas são capazes de produzir. No entanto, nem todas são peçonhentas, e a grande maioria não causa mal nenhum. Como possuem pouca capacidade de enfrentar as correntes marinhas, prendem-se nas areias das praias com a baixa das marés e ali terminam suas vidas. Não é incomum as praias ficarem cheias delas.

Então, ali estavam eles, numa tarde quente, na praia. De um lado, mãe e filha, do outro, pai e filha. A gente vai à praia, toma um banho, faz um esporte, cansa, senta na areia, ou numa cadeira, e fica olhando. Quem é curioso, acaba conjecturando a respeito dos outros, como nesse caso. Os adultos estavam na casa dos trinta anos, e eram famílias diferentes. A mulher em boa forma, bem cuidada, tatuagens nas pernas e braços. O homem um pouco mais descuidado, mais roliço, quem sabe fruto de intermináveis dias de trabalho sedentário. Uma tatuagem descia do seu ombro para o braço. Cadeiras lado a lado, conversa animada. A gente nota quando “um clima” se forma em um diálogo. Os corpos falam, a postura, a expressão facial, a forma como se dizem coisas alegres e riem com gosto.

Enquanto isso, as meninas pulavam e brincavam na areia e na água também. A dela, menorzinha e bem magrinha. A dele, um pouco mais velha e um pouco mais cheinha, como o pai. Arriscaria cinco ou seis anos, na idade média das duas.

E lá iam elas, brincar na água, dali a pouco voltavam às cadeiras, e procuravam chamar a atenção dos adultos. Um rápido desviar de olhar, um ahã, um sorriso, e as meninas entendiam que não capturavam a atenção. – não querem jogar bola?, tem uma aqui. – Quem sabe o baldinho e as pazinhas?

Não, teria que ser outra coisa. Como as mães dágua. A praia estava cheia delas, daquelas pequenas, transparentes, gordinhas, gelatinosas, boas de pegar, e que não queimam ninguém. E assim começou a peregrinação das meninas. Havia uma prancha de morey boogie na frente das cadeiras dos adultos, e elas iam até a água, pegavam mães dágua, traziam e depositavam na prancha. Cada vez havia uma observação.

– olha, mãe. Quantas eu consigo trazer!

– pai, olha essas, papai, mamãe e filhinha, e mostrava três daqueles seres, de tamanhos diferente, em ordem decrescente.

A prancha acabou coberta de mães dágua. A menina mais velha meio que desistiu da brincadeira, mas a menor insistiu ainda. Organizou um montinho dos bichinhos, e pegava uma grande quantidade, apertava nas mãos, deixava escorrer por seus braços.

– vocês precisam experimentar fazer isso, para ver como é gostoso!

– ahã, bem, agora filha, vem aqui comer uma banana e vamos pra casa.

Foi assim, a menina comeu a banana que a mãe ofereceu. Vestiram-se, pegaram as coisas, despediram-se os adultos e foram embora. O inusitado da história são as mães. A presente mas distante, a ausente, e as mães dágua.