Os gaúchos e a segunda sem carne

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O pessoal aqui no interior se criou no compasso do boi. A região da serra do sudeste é particularmente exemplar nessa condição. Bovinos, ovinos e equinos dominaram os campos da Encruzilhada. Nesse meio, a gurizada cresceu campereando, carneando e comendo carne. Sem se preocupar com o que essa atividade causaria ao meio ambiente. Afinal, nunca faltou água limpa, ar puro, peixe e caça para comer.

Para quem viveu assim, é muito difícil entender os conceitos de poluição da atividade pecuária e a razão porque cresce o movimento anti carne, vegetariano ou vegano. Afinal, não há culpa no que se faz.

Jose Lutzenberger, um dos maiores defensores mundiais da natureza, era fã da pecuária extensiva gaúcha. Segundo ele, uma atividade de muitos séculos que contribuiu para a proteção do meio ambiente. Além disso, a pecuária de corte extensiva do nosso Estado criou um tipo. Assim como os Hermanos uruguaios, argentinos, paraguaios e até chilenos, nos moldamos “gaúchos”.

Nico Fagundes, grande estudioso da cultura do cone sul americano, afirmava que “existirá o gaúcho enquanto houver boi criado a campo”. A pecuária de corte gaúcha não é tradicional, é cultural.

Fora do nosso Rio Grande, a pecuária é diferente. Acima do Mampituba é outro mundo. Toda a produção do centro oeste se dá sobre pastagens cultivadas. Lá, não existe esse campo com tantas espécies de pastos nativos nutritivos. Foi preciso suprimir o ambiente natural, o Cerrado, para trazer capins africanos e desenvolver a criação da zebuada. O mesmo na região amazônica. Hoje, a terminação lá para cima está sendo realizada, cada vez mais, em grandes confinamentos, que tratam o boi como porco, como diria um velho campeiro. Os bovinos deixaram de pastar para comer rações concentradas de milho e outros grãos.

A civilização está se encerrando em apartamentos, cheios de proteção e ar condicionado. A juventude vê um novo mundo, a partir de telas de computadores e telefones. Penso que exista um sentimento de identificação com o animal encerrado em baias. Tal qual o bicho que vive para se tornar carne, a pessoa se vê presa para produzir consumo. Essa talvez seja uma razão para que alguns optem por não comer carne. Existem outros motivos. Muitos, de ordem física, e os nutricionistas podem explicar. Outros, de ordem cultural, como o sentimento de que a pecuária destrói o meio ambiente.

Quanto ao meio ambiente, é preciso mostrar que a nossa pecuária é preservacionista. Além de ter produzido uma das culturas mais bonitas do mundo. Aí estão nosso campo, artesanato, vestimenta, música e danças para provar.